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domingo, 31 de dezembro de 2017

As Bodas de Ouro dos Meus Pais

Decorria o ano de 1962 e um alentejano, de Beja, magricelas e dançarino 🕺🏼 (tenho a quem sair) conhecia uma linda princesa 👸 alfacinha, de Carnide, nos bailaricos do ainda existente e grande Carnide Clube.
Foi amor 💕 à primeira vista (pudera, com uma princesa destas... a minha mãe era e continua a ser linda).

No ano de 1964 o alentejano magricelas e dançarino lá teve que ir para a guerra colonial, para Nova Freixo, em Moçambique 🇲🇿.
Anos horríveis!
O que o meu pai e os outros soldados passaram!
Ninguém merece!
O que sofreram e o que ainda hoje sofrem!
Durante a guerra colonial o namoro dos dois (o alentejaninho e a alfacinha) continuou, através de cartas.
Durante estes anos os meus pais viveram a mais linda história de amor 💕, que eu conheço.
Apesar da distância, o amor era cada vez maior...
Trocavam cartas de amor... as mais lindas cartas de amor 💗, que eu conheço.
Todas guardadas numa caixinha até hoje.
Sim, nesse tempo não havia Skype, WiFi , Messenger, FaceTime, Mail...

A 24 de Dezembro de 1966 o alentejano magricelas, dançarino e NOSSO HERÓI chegava de barco 🚣‍♀️ a Lisboa.
E lá estava a família toda à sua espera, inclusivé, claro, a princesa de Carnide.
Acreditam que o barco atracou a dia 24 e só no dia seguinte, dia de Natal 🎄, é que deixam sair os soldados para abraçar as suas famílias, que entretanto tinham dormido ao relento?
Que grande maldade fizeram a estes heróis.

O namoro continuou até ao belo dia 31 de Dezembro de 1967.
No dia que os meus pais casaram.
Há 50 anos atrás, precisamente a esta hora, na igreja da Luz, em Carnide.

Bem... depois... já se sabe... e que faz parte de um casamento... dias bons, dias menos bons, truca-truca e destas brincadeiras aos médicos e enfermeiras nasceram duas lindas princesinhas (eu e a minha mana) depois vieram os netos e bla bla bla... bla bla bla...

Já chega, não sei se alguem ainda está a ler este texto...

Mas só queria partilhar convosco estas palavras para desejar aos meus pais, aos dois seres humanos LINDOS e MARAVILHOSOS, os PARABENS pelas suas BODAS de OURO.
50 anos de casados!
Porra!
É dose!
Bem hajam, meus queridos pais!
Bem hajam, meus heróis!
Bem hajam, meus anjos!
E que venham mais uns quantos anos.

Tenho pena de não vos fazer uma grande festa (aqui a JE que adora festas e organizá-las e esta era a nossa festa, era especial 😕).
Tenho pena de não vos levar ao altar outra vez para renovarem os votos.
Mas as circunstâncias da vida não o permitem.

💗💗💗🙏🏻💗💗💗

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O #amor é assim

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Todos os filhos são pais da morte de seus pais

Não pude deixar de compartilhar...
 
" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa.
Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
 
Todo filho é pai da morte de seu pai.
 
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
 
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
 
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!


O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "